domingo, 27 de maio de 2012

Nem mais


Nem mais meu livro aberto me diz coisas.
Tenho ouvido muito e falado pouco.
Tenho visto de um tudo e fechado os olhos muito pouco.
Tenho sentido pouco diante do tanto 
que sorrisos estranhos, e belos, mas tão familiares,
tem me dado desde que acordo.
Tenho desistido de tantas promessas,
esquecido tantos pedidos,
abandonado tantos vícios...
Tenho acordado tarde.
Dormido tarde.
Veio tudo tão tarde que já não me faz falta se me falta.
E como falta!

Nem mais as roupa pretas lá jogadas,
na minha bagunça, me satisfazem.
Nem mais a nostalgia das tardes de outono,
as folhas caídas, 
e os anjos, também caidos, se sente.
E as asas cortadas?
Já nem se pode mais tentar voar.
Nem tentar olhar pro sol.
Nem pras estrelas, coitadas, lá em cima 
tão paradas... Nos vigiando.
Nem se pode mais esperar,
nem desesperar, 
nem fugir, nem ficar.

O que acalma são vozes antes de dormir...
que me cantam as tristezas, 
suas esperanças, o que não vem, 
o que lhes falta.
Depois me deixam sonhar com elas, 
e sonhar de novo, e de novo.
Despertam-me.
Desertam-me.
Não posso as deixar ir!


27.05.2012

sábado, 26 de maio de 2012

Aqui, Lá fora



Aqui é tudo tão fantasia, 
que lá fora não se sabe o que é.
Aqui tudo é tão transparente, 
e lá fora as máscaras resistem,
mas caem, no seu tempo.
Aqui silêncio é miragem, lá fora é surdez.
Aqui muitos dizem bobagens,
tolos, coitados.
Olhe lá fora, se é que pode ver.
Os sonhos aqui são possíveis
lá fora, meu caro, são malditos.
Olhe para fora e admita que está frio.
Volte pra dentro e se aqueça se estás vazio.
Julgue anjos, 
abençõe demônios,
desista de esperar...
As folhas estão quase todas ao chão, não vale mais a pena!
Seu tempo já se foi!
Se teus versos são poucos e fracos, meu caro,
Entre pra fora de si mesmo e vislumbre, e
creia, e
desfaça os laços.
Aqui e lá fora não se unem,
nem se separam.
São aqui.
São lá fora.
Não são nada.


25.05.2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Amanhã a gente brinca denovo




Me recordam a infância, esta manhãs de outono, mornas.
um sol tímido, ás dez, derrubando folhas,
vento calmo e doce,
um silêncio penetrante e canto de pássaros.
Me lembram tempos em que não precisava-se pensar em horários 
e cumprir ordens, e preocupar-se.
Não precisava pensar em outra coisa senão subir em árvores,
se sujar na terra,
correr na rua sem perigo algum,
dormir, brincar e comer.
Sentir o cheiro das flores sem medo.
Sorrir e vislumbrar-se com as borboletas
tão coloridas quanto lápis de cor,  
colecionar formigas,
fazer de bonecas, nossas filhas,
da sombra das árvores, nossa casinha.
E de uma manhã de outono, o resto da nossa vida.
Por vezes caem no esquecimento estas lembranças,
tão puras, eternas.
Em que não era necessário devermos explicações a todo mundo,
só perguntar tudo, pra todo mundo,
porque ele, o mundo, era todo nosso, 
tinhamos que saber quem era ele.
Nosso maior encômodo era apenas ter que parar de brincar para tomar banho,
e ter que dormir.
Mas não era lá tão encômodo, pois o dia seguinte já chegava denovo.
E as pequenas tristezas, as pequenas mágoas,
já iriam sarar.
Se as horas passavam, nem sabiamos.
Se demoravam a passar, menos ainda.
Nada era dificil, nada era feito por maldade
não existia  maldade, naquele tempo.
Me recordam muito a infância... tardes alaranjadas.
Finais de tarde com gosto de saudade de brincar o dia inteiro.
E quando começava a anoitecer.. esperar e esperar
pra ver a primeira estrela,
e pedir pra ela tanta coisa...
Sentada nas pedras, no meio da rua
desejava me tornar princesa.
Desejava encontrar um principe.
Desejava ser grande.
Hoje desejo voltar e mudar o ultimo pedido.
E quando a mãe chamava pra entrar
diziamos para esperar mais um pouco,
"a gente recém começou a brincar, mãe".
Duravam eternidades aqueles minutos chorados.
Após, voltavamos pra casa com sorrisos largos, já noite,
realizados, 
com joelhos ralados, canelas batiras, sujos,
e felizes por termos gasto toda nossa vida bricando naquele dia.
"Amanhã a gente brinca de novo, amiga, tchau!"


10.05.2012