sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Seus olhos choviam




Chovia. Chorava.
Lentamente. Apressada, triste, com raiva.
Molhava um pouco os cabelos. Lavava o rosto.
Uns protegiam-se. Ela se expunha á chuva, 
e as lágrimas.
Saiu sem nem olhar nos olhos dos pais.
Ela saiu, debaixo de chuva, sem se demorar,
sem dar importância a qualquer ângulo ao seu redor.
Queria sair dali, fugir dos rostos que a fizeram desmoronar.
Soluçava, chorava, estava vermelha.
Cruzava os braços tentando esconder o que todos que por ela passavam 
viam despencar de seus olhos.
Lavava seu rosto, junto com as lágrimas do céu cinza.
Me partiu o coração.
O dela já estava.
Me senti em seu lugar. 
E senti que também tinha motivos para lavar-me os olhos de chuva, e lágrimas.
Senti.
Chorei por dentro por muito tempo, também, 
quando a vi levar as mãos aos olhos para tentar secar sua dor,
sua raiva, tristeza.
Não se chora assim por nada.
Saudade também faz despencar.
Também dói.
Também é chuva.
Nem se o sol voltar os olhos dela irão parar de chover.
A não ser que alguém o faça.





26.10.2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012



Tudo bem que me calei, 
tudo bem que também se calou.
Não temos culpa se não querem mais nos ouvir.
Porém faz falta.

Era melodia infinda.
Dor intrínseca,
calculista e gélida.
Era fervor, mesmo dor.
Era sussurro.
Perturbação sonora que rasgava veias.
Era tornado, e sol, e chuva, e deserto.
E falta.

Meu calar ao fim da estação, também nos calou.
Teu calar, teu calor, 
faltam.

Tua voz me falta.
Falta, falta, falta, 
tanto falta ...
hora dessas já nem mais.
Nem nada mais.

Neste canto, encostada, não consigo ver a cor dos teus olhos.
Deste lado da estrada é difícil te alcançar.
Nessa altura da vida abraços já fazem falta...
E massageiam a alma quando voltam.

Mas ainda faltam.


22.10.2012